quinta-feira, 8 de março de 2012

Albert Nobbs (Albert Nobbs, 2011)



Hoje em dia vivemos em uma sociedade primordialmente sexual, onde toda a espécie de vida humana é regida sob ele, o sexo. Desde o momento em que nascemos, quando o médico diz: “É um menino” ou “É uma menina”, o individuo é criado e educado para performar de acordo e a favor com que seu órgão sexual define, mas e quando isso não acontece? É exatamente disso que Albert Nobbs discute; da vida solitária e secreta das pessoas transgressoras do gênero.

Quando você nasce, seu sexo define seu papel social de gênero, isso de acordo com um pensamento ultrapassado, tradicional e canônico. De acordo com os estudos de gênero modernos, sexo não define gênero, que além de ser socialmente construído, não é natural por não haver nenhuma relação com o corpo. Ora, se gênero é um constructo social, logo Albert é um homem, já que se veste e age como tal, mas o fato é que ele não faz questão de se definir sob nenhum sistema de sexualidade e é aí que habita a sua maior transgressão.

É difícil falar de Albert Nobbs, ele é uma criatura completamente etérea, livre de qualquer conotação sexual, puro e angelical, eu diria até que Albert não tem sexo. Aliás, sexo, para ele, é um assunto extremamente complicado, já que este se revela muito confuso ao descobrir que Hubert Page é mulher também, e casada com outra mulher. Parado em frente do espelho, parece não compreender bem essa situação e se pergunta como é possível isso acontecer, “uma mulher se casar com outra mulher e viver como homem”. Na verdade, ele também é produto de uma sociedade que precisa imediatamente rotular tudo o que vê.

Albert Nobbs é um empregado de um pequeno hotel na Irlanda, no século XIX, admirado e respeitado por todos, ele vive seus dias na mais completa calma e solidão, escondendo sob seu apertado espartilho, seus seios, na verdade Albert é uma mulher, que se disfarça para poder juntar dinheiro em uma sociedade machista para abrir seu próprio negócio.

O filme pode suscitar uma série de discussões, sobre o poder, sobre o papel emancipatório da mulher em uma sociedade patriarcal e indiretamente até sobre as definições modernas de gênero, já que nunca é possível definir qual gênero o personagem principal pertence (o que nos gera um grande sentimento de inquietação). Para alguns ele é uma mulher travestida, para outros é um homem, mas basta conhecer um pouco sobre os estudos de gênero contemporâneos e perceberemos que essa não é uma tarefa fácil de definição. Em certo momento ao ser questionado sobre o seu nome, ele responde: “Albert”, e ao ser questionado novamente sobre o seu verdadeiro nome, ele responde sem hesitar: “Albert”, ou seja, essa é sua própria definição ou talvez ele não precise de uma.

             O trabalho de Glenn Close é bem sucedido ao retratá-lo como um ser assexuado, livre de quaisquer maneirismos, com apenas um foco na vida, juntar seu dinheiro e montar seu negócio, preocupado unicamente em fazer bem seu serviço e passar despercebido por todos, Albert perambula por aquele local sem chamar muita atenção, parece que seu olhar triste e resignado está sempre disposto a nos provocar um sentimento de piedade por aquele ser invisível.

            O filme foi visto por poucas pessoas, tendo gerado ao estúdio poucos milhões de dólares na sua estreia nos EUA, talvez seja por isso que tenha passado quase despercebido no Oscar e em outras premiações, não fosse a tamanha competência de Glenn Close e Janet McTeer, duas grandes atrizes que brilham em seus papéis.

            Na era pós-gênero, diversas discussões assolam a sociedade que imediatamente após o nascimento do individuo precisa definir sexo e gênero e assim determinar o resto da vida do indivíduo, mas o que poucos entendem é que esse pós-gênero fala também sobre as pessoas sem gêneros, que preferem não ser enquadradas (e nem têm essa necessidade) dentro de um sistema anteriormente existente que diga como ela deve agir ou por quem deve se sentir atraída, e não é lindo que um filme que se passa em pleno século XIX aborde tais questões tão contemporâneas?

3 comentários:

Flávio disse...

Simplesmente ótimo o seu texto Kauan. Ainda não assisti o filme, mas depois de ler o seu texto aumentou meu interesse.

Kauan Amora disse...

Obrigado, Flávio! =)

daysecabralatriz disse...

Adoro ler suas análises e resenhas sobre os filmes. Como você também sou apaixonada por cinema e sempre que tenho um tempo, escrevo minhas notas sobre os que assisto e gosto. Sua análise sobre este filme é maravilhosa. Rodrigo Garcia é um dos meus diretores preferidos. Novamente parabéns.

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