terça-feira, 26 de abril de 2011

Reencontrando a felicidade (Rabbit Hole, 2011)


Rabbit hole impressiona e emociona pela sua simplicidade. John Cameron Mitchell nos conta uma triste história de um casal que luta para seguir em frente depois da morte do filho pequeno em um acidente de carro. O casal, muito bem defendido por uma Nicole Kidman e um Aaron Eckhart no melhor exercício de suas profissões, lida com o luto e com a perda da maneira mais acessível que lhe convêm de formas muito diferentes e às vezes até contraditórias. Howie se apega a vídeos do filho, fotos, pegadas de mãos sujas nas paredes e qualquer coisa que o faça lembrar do filho, mas ao mesmo tempo aceita a opção de ter outro filho ou até mesmo de vender a casa, já Rebecca tenta se livrar de tudo, não na tentativa de esquecer, mas apenas na tentativa de amenizar a dor, como doando roupas, colocando os brinquedos no porão, ou tirando a cadeirinha do banco de trás do carro, mas não consegue se afastar do garoto que provocou o acidente que matou o seu filho, em uma tentativa de misericórdia ou de lembrança, já que este se apresenta como a única lembrança viva do filho que não terá mais.
A dor da perda de um filho é um assunto recorrente no cinema, tratado de várias maneiras, como o belo italiano O Quarto do filho ou o visceral Entre Quatro Paredes, de Todd Fields. A narrativa de Rabbit Hole, que foi baseada em uma peça teatral vencedora do Tony, acerta ao se tornar bem equilibrada entre momentos subjetivos e objetivos, ao tentar transpor aos nossos olhos o conflito interno de seu casal principal e as brigas entre eles, na tentativa de achar um culpado.
John Cameron Mitchell, que há alguns anos dirigiu Shortbus, um drama (explícita e esteticamente) erótico, que contava histórias sobre a vida sexual de vários estranhos. Ao olho nu, Shortbus podia soar apenas pornográfico e superficial, mas em uma melhor análise Shortbus, que usa o sexo para falar sobre a solidão nas cidades, e como o sexo fácil pode ser uma válvula de escape. Aparentemente, me surpreende a segurança com que Cameron Mitchell dirige Rabbit Hole, transformando o filme em uma obra bem estruturada e comovente, sem arroubos dramáticos para segurar a atenção. Aliás, ao longo do filme podemos citar cenas memoráveis, como a cena do porão, em que Becca pergunta a mãe:
- Algum dia essa dor vai embora? e Nat (Diane Wiest), responde com uma honestidade cruel: - Não!
Temos ainda a cena do carro, em que Becca presencia a festa de uma família na ida do filho para a faculdade e se dá conta de que ela nunca viverá esse momento, e aos poucos flashes do dia do atropelamento invadem sua mente e a levam a um ataque de choro, tenho que citar a grandiosidade dessa cena e a magnitude da excelente montagem que opta por cortes rápidos mostrando apenas o semblante de pavor e de desespero da mãe, que se move lentamente, servindo como uma luva ao estudo psicológico do momento, já que de fato os momentos mais traumáticos de nossas vidas só conseguimos lembrar através de cortes fragmentados, a cena associada à bela e melancólica trilha sonora, se torna ainda mais triste.
Nicole Kidman, como Rebecca, exerce o melhor trabalho de sua carreira em anos, talvez desde As Horas, louvada pela crítica esse ano, talvez tivesse chances no Oscar se o filme tivesse melhor lançamento e divulgação, mas a injustiça do esquecimento fica por parte do excelente trabalho de Diane Wiest, a eterna coadjuvante de ouro, como a mãe que já passou por isso e que conseguiu se reerguer.
O fato de nunca conhecermos Arthur, não diminui a dor da perda e ao contrário, ainda conseguimos nos reconhecer em sua dor.
Certa vez ouvi um ditado que dizia: “Quando um cônjuge perde o companheiro, ele se torna viúvo, quando um filho perde os pais, se torna órfão, mas quando os pais perdem um filho, isso é tão desumano que ninguém ousou dar um nome”. Esse tema pode ser tratado no cinema milhares de vezes, mas nenhum filme vai conseguir traduzir a dor dessa perda, mas Rabbit Hole é válido pelo exercício. Um dos mais belos filmes do ano.

NOTA: 8,5

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