segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Precisamos falar sobre o Kevin (We need to talk about Kevin, 2011)



Precisamos falar sobre o Kevin é um filme de análise de personagem, onde o objeto de estudo é Eva Katchadourian que tem sua vida mudada e destruída após o massacre causado pelo seu filho na escola em que estudava.
Através de uma montagem fragmentada e não cronológica vamos conhecendo a vida de Eva em diversos momentos, desde o início do namoro com seu marido até o momento em que tem que lidar com as consequências do ato cruel que seu filho cometeu. A montagem aparentemente desconexa serve aqui para que possamos perceber e refletir sobre as mudanças, tantos físicas quanto psicológicas, que a personagem principal sofre, enquanto Kevin ainda é criança, apesar de sua relação com o filho já se revelar conturbada, vemos na figura de Eva uma mulher vaidosa, inteligente e segura, ao passo que se revela extremamente cansada, distraída e antissocial depois da tragédia, e isso está extremamente claro no trabalho magnífico de Tilda Swinton, que abordarei a seguir.
O filme se inicia com a personagem feliz no meio de centenas de pessoas, sendo carregada toda suja de um líquido vermelho e a partir daí vai ser constante a luta de Eva para se livrar desse vermelho, seja quando ela acorda com a fachada de sua casa toda suja de vermelho em um ato de vandalismo ou quando seu filho suja de vermelho as paredes do seu quarto com uma pistola de brinquedo só para vê-la desesperada. O vermelho aqui pode significar a dor da personagem que jamais a abandona e principalmente, a crueldade do ato de seu filho, por mais que ela limpe seu carro, a fachada de sua casa ou as paredes do quarto, a tragédia nunca vai embora, o sangue sempre vai estar presente em suas mãos.
Assistir Eva sendo lentamente devorada viva pela culpa e pela perplexidade se torna um processo extremamente doloroso para o espectador, conhecer uma Eva resignada e tratada como a principal culpada do que aconteceu não é nada fácil, em certo momento ela está no corredor de um supermercado e de repente se esconde assustada e ofegante de uma mulher, deixando até sua bolsa para trás, quando mais tarde descobrimos que aquela mulher era mãe de uma das vítimas de seu filho, em outro momento Eva é agredida na rua e aceita a agressão como forma de punição, seja a agressão verbal ou física, isso vai destruindo a sua condição humana aos poucos e sem perceber Eva caminha para o fundo do poço.
O grande triunfo do filme com certeza está no trabalho fenomenal de Tilda Swinton, uma atriz que vem revelando-se mais competente a cada projeto. Tilda é hábil ao fragmentar o comportamento de Eva em dois momentos: antes da tragédia, como já havia citado, a personagem revela-se inteligente, vaidosa e feliz, demonstrando algumas nuances de revolta e insegurança perante o seu filho, mesmo que este ainda tenha seis anos de idade, ela se torna completamente imóvel ao tomar qualquer providência em relação às atitudes provocadoras dele. Logo após a tragédia, Tilda expõe a mudança drástica que sua personagem sofreu ao mostrar Eva quase como um animal indefeso, sendo tomada pelo medo de ser vista em público, e pela culpa através de nuances como um tom de voz mais baixo e sussurrado ou em um olhar cansado e perdido. Eva se empolga ao saber que pode se conectar na internet, Eva corre para o lado contrário quando alguém grita seu nome na rua, Eva aceita as ofensas e olhares de julgamento calada, como eu disse, não é uma tarefa fácil assistir a degradação humana de uma pessoa que não teve culpa em relação a nada.
Se você ainda não viu o filme, pule para o próximo parágrafo:
Kevin odiava a sua mãe mais do que tudo no mundo, e o grande objetivo de sua existência na terra era transformar a vida dela em um inferno, mas poupá-la de ser mais uma de suas vítimas talvez tenha sido um ato final de crueldade, porque morrer é rápido demais, deixa-la viva para suportar todos os dias a dor de perder sua família e ser constantemente o alvo fácil de uma sociedade hipócrita que aponta o dedo para todos os defeitos do outro, seria mais doloroso e cruel, o que ele não contava é que poderia estar completamente enganado.
Precisamos falar sobre o Kevin reflete sobre um tema que filmes como Elefantes, de Gus Van Sant e Tarde Demais, de Shawn Ku já debateram, apenas com um ponto de vista diferente, focando na suposta culpa e responsabilidade daqueles que deveriam educar para que seus filhos se tornassem seres humanos melhores.

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