domingo, 3 de março de 2013

Amor (Amour, 2012)



Ao entrar no cinema, ainda pelo horário de 17h30minh, o tempo estava claro e o céu azul, uma bela paisagem. Quando saí do cinema, com os meus amigos, a noite já tinha caído, o céu estava escuro e estrelado. O tempo passou, o dia virou noite, como é de se esperar todos os dias, logicamente. Haneke poderia ter feito um filme sobre essas horas que eu e mais dezenas de pessoas compartilhamos dentro de uma sala de cinema. Competente do jeito que é, não duvido que saísse daí um filme muito autoral e interessante.

Fiz esta pequena introdução, óbvia em sua primeira parte, para explicar que enxergo em Amor um filme que fala acima de tudo sobre o tempo, e não sobre velhice. Com o tempo vêm os percalços, os infortúnios, a saudade e também a velhice, que parece ser mais um estado de alma do que uma fase da vida.

Em Amor, acompanhamos o dia a dia de um casal octogenário vivido de forma brilhante por Jean-Louis Trintignant (Georges) e Emanuelle Riva (Annie), até que Annie (Riva) sofre um AVC e fica com o lado direito do corpo paralisado. A partir daí, começa a derradeira e irreversível descida ao fim.

Sou sobrevivente de outros filmes de Haneke e para mim suas obras ultrapassam todos os limites cinematográficos e seus filmes acabam virando experiências, na maioria das vezes violentas, por isso me considero um sobrevivente, dentre tantos outros que apreciam sua cinematografia. Com “Amor” não é diferente.

Em “Amor”, acompanhamos o passar de um dia, um mês, ou oitenta anos. O tempo é elemento fundamental, seja ele o tempo de cada cena, o tempo de seus personagens, que demoram mais tempo para se levantar da mesa da cozinha para ir até a pia molhar um pano (Haneke tem toda a paciência do mundo ao filmar a calma com que seus atores se movimentam) ou o tempo que acontece fora, aquele que não vemos, o tempo que Georges leva para pegar o álbum de fotos enquanto vemos Anne sentada na mesa da cozinha, ou o tempo em que Georges vai até o outro cômodo da casa buscar Anne e somos obrigados a ver o desconforto de seu ex-aluno em esperar na sala (desse tempo, Haneke cuida especialmente bem, já que é característica de seu cinema), ou o tempo real, esse o mais implacável de todos.

Com o tempo se vem a velhice, por isso defendo a ideia de que o filme é sobre tempo e não velhice, a velhice parece só chegar com o segundo AVC de Anne, até então os personagens são apenas pessoas com mais tempo de vida. E ficamos surpresos ao descobrir que esses dois vivem juntos há quase um século e ainda não sabem tudo um sobre o outro.

“Amor” é uma poesia cinematográfica, Haneke é um poeta, mas não um poeta bondoso e misericordioso, apesar de ele tirar tanta beleza da implacabilidade e fúria do tempo, seu filme ainda é forte e violento, porque mexe com aquilo que mais tememos durante toda a nossa frágil existência: o fim.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Compliance (Compliance, 2012)



Recentemente, mais especificamente hoje, saiu o listão dos aprovados da Universidade Federal do Pará logo pela manhã, e como forma de brincar com os meus amigos fiz um post no facebook que transcrevo aqui: “PASSSEEEIIIIIII!!! Finalmente! Achei que não ia conseguir! Agora é só festaaaaaaa! Um soco na mente daqueles que não acreditaram em mim! Matei o Super Galo e passei para a próxima fase de A Invasão das Galinhas! Tão feliz!”.

            Bom, não passei no vestibular, até porque já estou me formando na Universidade referida (porque eu faria um novo vestibular?). Acredito que deixei bem claro a ironia de que aquilo não passava de uma brincadeira (até usei o nome trash de um jogo para computador justamente para reforçar a ironia do comentário), mas mesmo assim algumas pessoas me cumprimentaram pela “grande conquista”, realmente acreditando que seria um calouro. O que me faz pensar: ou elas não leram o post na íntegra ou elas simplesmente nunca foram apresentadas a ironia.

            Porque coloco como introdução um fato bizarro como este dentro de uma análise de um filme como Compliance? Porque ironicamente, a medida que via as pessoas me parabenizando resolvi assistir esse filme, dirigido por Craig Zobel, mesmo sem saber do que se tratava, e vi incríveis semelhanças do acontecimento do filme como o meu acontecimento bizarro nesta rede social, que explicarei logo adiante.

            Compliance conta a história de uma lanchonete de uma cidade do interior dos Estados Unidos, gerenciada por Sandra Fromme (Ann Dowd), que recebe um telefonema da polícia afirmando que uma de suas funcionárias havia roubado uma quantia em dinheiro da bolsa de uma cliente que estava na delegacia fazendo a denuncia, logo a funcionária Becky (Dreama Walker) é chamada na sala da gerência que fica nos fundos da lanchonete (onde a maior parte do filme se passa) para ser revistada, a partir daí os conflitos vão se desenvolvendo.

            Compliance (que ainda não recebeu um título nacional) é desenvolvido com uma direção extremamente competente de Craig Zobel, que ainda escreve o filme. Apesar de o filme ser quase teatral por se passar na maior parte dentro de um mesmo local e com uma quantidade restrita de personagens, o suspense e os conflitos são tão bem desenvolvidos, com tanto cuidado, que é bem difícil do espectador se sentir desinteressado. A câmera parece a todo o momento estar desfilando por aquele local simples e bastante esquecível, filmando sempre em planos-detalhe os objetos e instrumentos com quais aqueles funcionários trabalham, revelando-os com bastante tristeza e simplicidade. A trilha sonora é bastante elegante e precisa ao reforçar os momentos mais tensos com um violoncelo de acordes pesados.

            O elenco é composto por atores desconhecidos do grande público, como Dreama Walker, da série cômica Apartamento 23, e Ann Dowd, que até então tinha feito apenas personagens secundários em filmes independentes. Dreama Walker é o elo fraco do filme, apesar de ser a protagonista, deixando o caminho completamente livre para que Ann Dowd possa brilhar ao revelar sua Sandra Fromme como uma mulher extremamente calma, por vezes patética, mas que pode elevar o tom da voz de vez em quando, nada que seja autoritário, já que na maioria das vezes ela o faz para demonstrar alguma autoridade com seus funcionários, que sempre zombam secretamente dela.

            O fato é que Compliance levanta uma série de debates fundamentais da sociedade em que vivemos e hoje. Por isso, se você ainda não viu o filme e pretende vê-lo, aconselho-o para por aqui. Repito, se você ainda não viu o filme e pretende vê-lo, pare a leitura por aqui. Se você ainda não entendeu, por favor, leia este parágrafo mais uma vez.

           
SPOILERS: 
O telefonema deste suposto policial acusando uma das funcionárias dessa lanchonete de roubo é falso, não se passa de um trote de alguém que tem muito tempo livre e a fim de atrapalhar a vida dos outros, mas em nenhum momento qualquer personagem da história cogita esta possibilidade (o que pode parecer uma falha do roteiro, mas não é), o que faz com que Becky seja submetida a uma série de abusos, inclusive um forçado sexo oral devido a uma restrita “ordem policial”. Caso ela não cumpra suas ordens, ela será presa. Mas nenhum personagem acha que essas ordens já foram longe demais, e apenas obedecem elas cega e pateticamente.

Além de levantar a discussão sobre trotes telefônicos (que aqui no Brasil já tem chegado a índices alarmantes, mas que ainda é pouco privilegiada), o filme ainda discute a relação funcionário/patrão em uma situação delicada como esta, mas, talvez, a mais importante de todas é a discussão de como somos seres feitos e educados para obedecer as ordens que vem de cima, aniquilando totalmente qualquer habilidade de raciocínio ou questionamento.

Na sociedade de hoje, vemos padres e bispos como figuras de autoridade, são eles os donos da verdade religiosa e obedecemos com medo de sermos castigados, pagamos o dízimo (que por vezes assumem um valor absurdamente caro) sem sequer saber para onde ele vai ou o motivo de sua importância, só ouvimos que essa é a palavra de Deus e estamos bem com isso, compramos a nossa passagem aos reinos do céu.

Em Compliance não é muito diferente, a polícia está aí para manter a ordem, para nos dizer o que fazer, então se um policial do outro lado da linha diz que eu devo obrigar uma funcionária a tirar a roupa e abrir mão de qualquer dignidade expondo-a a tamanha humilhação, eu o faço, com medo de ser preso, sem em nenhum momento questionar se ele já passou dos limites ou sequer questionar se ele realmente é um policial. Parece um absurdo, mas esse tipo de situação já aconteceu mais de 70 vezes nos Estados Unidos.

Agora voltando ao assunto do início do texto (caso você não se lembre, pode ler os dois primeiros parágrafos, eu espero). Parece-me, hoje, que somos cobertos por uma cegueira que nos impede de ver as coisas que estão na nossa frente, mesmo deixando explícito que aquilo não passava de uma brincadeira (meus posts são geralmente muito irônicos, que brincam com as situações bizarras do cotidiano, o que ainda deixa mais claro o teor falso do meu comentário) as pessoas continuaram me parabenizando, inclusive pessoas da minha família, que sabem que estou prestes a me formar. Então, levando em conta os fatos, acredito que Compliance deveria ser exibido obrigatoriamente em todos os cinemas de todas as cidades, ele é de utilidade pública, e urgente. Hoje, pedir para as pessoas pensarem e questionarem é tão difícil quanto a aparição de pôneis voadores feitos de pudim. Não, eles não existem, sociedade.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A Mulher Canhota (The Left-Handed Woman, 1976)




É verdade que nossa sociedade vive em uma ditadura da felicidade, onde todos aparentemente são felizes e sabem exatamente o que isso significa, o que nos qualifica ensinar ao próximo o que é ser feliz, e empurrar goela abaixo todos os nossos parâmetros e regras que ninguém pode deixar de seguir.

A Mulher Canhota nos apresenta uma Alemanha pós-guerra, triste, gélida, desconsoladora e que nos convida ao afastamento humano aliás, me arrisco a dizer que o lugar funciona como personagem coadjuvante da história, já que esta sempre se apresenta como um local desconfortável, suas ruas têm sempre pouquíssimas pessoas e sua paisagem para ser estar em um constante estado de depressão, traduzindo o estado de espírito de sua personagem principal, como por exemplo, um bosque que se apresenta com suas árvores cortadas, logo depois da fatídica decisão.

O filme é baseado no livro de Peter Handke, e conta a história de Marianne, mulher inteligente e de meia idade, que por um motivo desconhecido resolve mandar o marido sair de casa e resolve viver sozinha com seu filho ainda pequeno, abrindo mão da família, do conforto financeiro para viver uma vida sozinha e por vezes solitária.

O fato é que nunca descobrimos por parte de Marianne porque esta se separou do marido, já que este se revela um homem ideal, trabalhador, fiel e preocupado com a família. Ela toma a decisão e sequer se dá o trabalho de justificá-la. O diretor Peter Handke, parece sempre nos instigar a descobrir o motivo, mas sem nunca dar pistas ou conclusões suficientes para que possamos fazê-lo, o que só aumenta mais o interesse Parece que Marianne resolveu se desafiar e desafiar as pessoas próximas de que é capaz de levar uma vida sozinha, mas não solitária, embora todos ao seu redor achem um absurdo sua decisão e tentem a todo o momento convencê-la de voltar atrás, e esta se mostra irredutível.

Marianne lança a mão de uma vida segura, confortável e aparentemente feliz para viver sozinha em uma casa imensa, perambulando nas ruas de sua cidade, vivenciando a sua vida consigo mesma.

Hoje, tomar uma decisão como essa parece loucura, já que vivemos em uma sociedade normativa que estabeleceu regras que servem como manuais de como sermos felizes, especialmente para as mulheres, que desde cedo são educadas para serem boas esposas, donas de casa e mães. Aqueles que abdicarem dessa ideia são loucos e não têm a menor chance de serem felizes.

O roteiro parece ser criado ao acaso, onde depois da decisão de sua protagonista nada mais acontece, não possui ação dramática, é como se estivéssemos testemunhando uma vida acontecendo livremente sob os nossos olhos, Marianne vai sendo levada pelo espaço e pelo tempo, imóvel e desinteressada de mudar de vida.

No final das contas, A Mulher Canhota aparentemente conta a história de uma mulher que resolveu se questionar esses valores rígidos e não foi em busca da felicidade, mas atrás de si mesma, seguindo um caminho completamente diferente das outras (daí o nome A Mulher Canhota). Ao longo da projeção acompanhamos Marianne vivendo momentos de extrema alegria, como passear com seu filho ou mesmo com seu pai, e momentos de extrema solidão, ao chorar sozinha durante a noite olhando a paisagem lá fora. O que prova que tanto as pessoas casadas, com famílias perfeitas e construídas quanto as pessoas sozinhas, que vivem por si mesmas, tem seus momentos de alegria e tristeza e que esses valores são apenas reflexos de uma sociedade fria, autoritária e que não se reconhece, nem a si mesma e nem o seu lugar no mundo. Marianne é um anti-heroína. 

domingo, 15 de julho de 2012

Sinédoque, NY (Synecdoche, New York, 2008)




       "Sinédoque, NY" é um filme pessimista e realista sobre os fracassos de uma ou de todas as vidas. Passamos a vida inteira ouvindo frases de auto-ajuda como "Todo mundo é protagonista de sua própria história", e em um certo momento do filme, seu protagonista chega a repetir essa frase, mas só para logo em seguida testemunharmos de que essa não é bem a verdade, haja vista que a vida do diretor teatral Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) parece criar vontade própria e excluí-lo de tudo, assim como fizeram todas as mulheres que o conheceram, até ele se tornar um mero boneco que exerce atividades diárias banais ao som de uma voz que sai de sua cabeça lhe dizendo tudo o que fazer.

Além de ter escrito o roteiro, Kaufman também estréia na direção e parece bem intencionado em brincar com todas as frases de efeito que costumamos ouvir durante nossas vidas, como: "A vida é um palco". Em Sinédoque NY, a vida é um palco mesmo, literalmente. Caden Cotard é homenageado com um prêmio que lhe proporciona um orçamento enorme para realizar o espetáculo teatral de sua carreira, de grande magnitude, desde então Caden passa anos tentando realizar a grande obra de sua vida, a sua vida. Tudo se torna tão grande, mas tão grande, que aos palcos sua criação começa a tomar-lhe conta, é tudo muito megalomaníaco, o que cria uma linda ironia ao descobrirmos que sua ex-mulher Adele Lack (Catherine Keener) é uma artista que trabalha com pinturas em miniaturas, que as pessoas só conseguem vê-las completamente usando um óculos microscópico, o que revela a absurda discordância dos dois artistas, tanto na vida profissional quanto na vida amorosa.

O primeiro filme escrito por Kaufman que assisti foi Adaptação, há muitos anos, e lembro de ter amado a experiência justamente pela forma sutil como ele trata seus personagens, logo depois vi Brilho Eterno de uma mente sem lembranças, e foi outra experiência inigualávelmente bela. Desde então, pensei que Kaufman não pudesse se superar, mas estava absurdamente errado, em Sinédoque NY, ele não só se supera como cria uma outra obra-prima. É um filme completamente autoral, é feito por Kaufman para Kaufman, talvez isso seja o mais incrível na obra, o exercício catártico de um grande escritor, agora também diretor.

Sinédoque NY não é mais um filme, é um evento cinematográfico. Apesar de ter um elenco formidável, desde Catherine Keener (uma das melhores atrizes da cena independente americana) até Philip Seymour Hoffman, passando por Diane Wiest, o filme não é de nenhum deles. Ao acabar temos a sensação de ter presenciado um ato egoísta, é um filme de Kaufman, por Kaufman, para Kaufman, o que só engrandece a obra. Sinédoque NY é obrigatório, lírico, uma aula de cinema e teatro.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O tempo de cada um (Personal Velocity, 2002)





          A simplicidade da lágrima que corre pelo rosto de uma mulher que, de repente, descobre que a vida que ela possui e muitos julgam perfeita, já não é mais o bastante. Greta Herskowitz (Parker Posey) parece sempre estranhar o mundo e as pessoas a sua volta com um olhar de curiosidade e por vezes indiferença, ela parece se descobrir cada vez mais e se surpreender com suas ações, o problema é que o resultado nem sempre é bom. Para ela, é irônico o fato de se descobrir humana e portanto, suscetível aos mesmos erros que seu pai cometeu no passado e que ela tanto detestava.

          É sobre isso o filme de Rebecca Miller, sobre a auto-generosidade de nos descobrirmos humanos e sobre as eternas e cegas buscas por uma felicidade que outrora nos disseram que existe, mas que parece escapar sempre que chegamos mais perto.

          Rebecca Miller possui um olhar atento, aguçado e honesto com suas personagens que pertencem ao livro de contos que ela mesma escreveu e que são levadas para as telas do cinema como extrema dedicação e competência de atrizes respeitadas como Kyra Sedgwick, Parker Posey e Fairuza Balk.

          Assisti "O tempo de cada um" pela primeira vez em 2007 e desde então se tornou o filme que me abriu as portas ao cinema americano independente e francamente, desde então descobri pérolas tão valiosas quanto o filme de Rebecca Miller. Cassavetes estaria orgulhoso.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987)




O cinema recentemente assumiu uma posição importante não só no ramo do entretenimento, mas também na dimensão social dos assuntos que são discutidos, porém durante a produção seus responsáveis não têm a mínima ideia de como ele vai ser recebido pelo público, uma prova disso é o filme de Adrian Lyne, Atração Fatal (1987).

Que Glenn Close é motivo para assistir qualquer filme que tenha seu nome na ficha técnica, qualquer cinéfilo que se preze sabe, porém, aqui, ela não é o único motivo para descobrir o filme, seu excelente roteiro e forma como ele é conduzido com extrema segurança por Lyne, são outros motivos suficientes para dar uma olhada.

O filme foi lançado na década de 1980 e toca em diversos assuntos como relação extra-conjugal e família, mas tem um assunto que seus produtores jamais poderiam imaginar que iria chamar tanta atenção, o feminismo. O fato é que o filme traz à tona a realidade da mulher americana independente profissionalmente e solteira em uma época onde as mulheres lutava de forma fervorosa pelos seus direitos em todas as áreas. Só que retratar o tipo de mulher que acabei de citar acima, como uma desequilibrada e psicótica, não agradou nada as fervorosas feministas, levando o discurso em questão a nível nacional, transformando o filme em um célebre exemplar de discussão social.

Comentado tanto por sociólogos quanto por psicanalistas, o filme surge como um belo exemplo do cinema como prática social, espaço aberto para trazer à tona tabus engessados por uma sociedade ainda pouco evoluída quando o assunto é a categoria Mulher.

Só para finalizar, Glenn Closse é extremamente hábil ao não transformar Alex Forrest em uma vilã sem escrúpulos. Em todo momento vemos a personagem como alguém completamente alheia aos atos cruéis que comete, ciente de que aquilo é para o bem de todos, o que reforça ainda mais o seu desequilíbrio psicológico. No fundo, Alex Forrest não chega nem perto de ser o exemplo da mulher contemporânea como todos afirmavam cheios de medo, mas é uma mulher única, que representa somente a natureza cruel de alguém que recebeu pouca atenção na vida.

domingo, 1 de abril de 2012

Fome (Hunger, 2008)



É preciso de muito cuidado ao falar de filmes como Hunger, o primeiro filme do diretor Steve McQueen, pois é muito fácil elogiá-lo pela ousadia e pela macabra transformação que seu personagem principal sofre, interpretado por Michael Fassbender, mas é preciso uma análise mais detalhada do filme como um todo.

Decidido a mostrar o inconformismo e guerra do povo britânico perante o governo polêmico de Margareth Thatcher sob outro ângulo, Steve McQueen além de ousado, possui um imenso conhecimento técnico cinematográfico, desde os primeiros momentos da projeção já possível perceber que não se trata de um filme comum e nem um filme de fácil de digestão, alternando entre momentos de extremo silêncio e outros de torturas, o filme nos causa náuseas e admiração, ao mesmo tempo.

O grande Michael Fassbender, que já começou a ser esnobado pelas grandes premiações do cinema norte-americano desde esse filme, exerce um belo trabalho, mas não, não por causa de sua assustadora transformação física, chegando a um estado desumano de magreza, mas pela grande presença e segurança que estabelece desde seu primeiro momento em cena. Sempre preocupado em justificar as ações de seu personagem, graças ao competente roteiro escrito também pelo seu diretor, ele faz com que enxerguemos seu personagem como um ser real, movido por suas causas políticas e mostrando-se sempre irredutível ao que acredita. Seus maiores momentos não estão na exibição de sua magreza, mas sim no seu incrível monólogo ao conversar com o padre, no qual se mostra como um ser com uma grande inquietação política e com fortes argumentos. Uma figura forte, sem dúvidas.

Acredito que os únicos momentos que o filme peca, são os quais revelam uma exacerbada frieza de seus personagens, como a figura materna que não tem força alguma e na cena em que seu filho o visita.

Hunger, sem dúvidas, é um filme forte, autoral e que inicia um excelente trabalho em dupla de seu ator e diretor, que merece perdurar durante os anos.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Albert Nobbs (Albert Nobbs, 2011)



Hoje em dia vivemos em uma sociedade primordialmente sexual, onde toda a espécie de vida humana é regida sob ele, o sexo. Desde o momento em que nascemos, quando o médico diz: “É um menino” ou “É uma menina”, o individuo é criado e educado para performar de acordo e a favor com que seu órgão sexual define, mas e quando isso não acontece? É exatamente disso que Albert Nobbs discute; da vida solitária e secreta das pessoas transgressoras do gênero.

Quando você nasce, seu sexo define seu papel social de gênero, isso de acordo com um pensamento ultrapassado, tradicional e canônico. De acordo com os estudos de gênero modernos, sexo não define gênero, que além de ser socialmente construído, não é natural por não haver nenhuma relação com o corpo. Ora, se gênero é um constructo social, logo Albert é um homem, já que se veste e age como tal, mas o fato é que ele não faz questão de se definir sob nenhum sistema de sexualidade e é aí que habita a sua maior transgressão.

É difícil falar de Albert Nobbs, ele é uma criatura completamente etérea, livre de qualquer conotação sexual, puro e angelical, eu diria até que Albert não tem sexo. Aliás, sexo, para ele, é um assunto extremamente complicado, já que este se revela muito confuso ao descobrir que Hubert Page é mulher também, e casada com outra mulher. Parado em frente do espelho, parece não compreender bem essa situação e se pergunta como é possível isso acontecer, “uma mulher se casar com outra mulher e viver como homem”. Na verdade, ele também é produto de uma sociedade que precisa imediatamente rotular tudo o que vê.

Albert Nobbs é um empregado de um pequeno hotel na Irlanda, no século XIX, admirado e respeitado por todos, ele vive seus dias na mais completa calma e solidão, escondendo sob seu apertado espartilho, seus seios, na verdade Albert é uma mulher, que se disfarça para poder juntar dinheiro em uma sociedade machista para abrir seu próprio negócio.

O filme pode suscitar uma série de discussões, sobre o poder, sobre o papel emancipatório da mulher em uma sociedade patriarcal e indiretamente até sobre as definições modernas de gênero, já que nunca é possível definir qual gênero o personagem principal pertence (o que nos gera um grande sentimento de inquietação). Para alguns ele é uma mulher travestida, para outros é um homem, mas basta conhecer um pouco sobre os estudos de gênero contemporâneos e perceberemos que essa não é uma tarefa fácil de definição. Em certo momento ao ser questionado sobre o seu nome, ele responde: “Albert”, e ao ser questionado novamente sobre o seu verdadeiro nome, ele responde sem hesitar: “Albert”, ou seja, essa é sua própria definição ou talvez ele não precise de uma.

             O trabalho de Glenn Close é bem sucedido ao retratá-lo como um ser assexuado, livre de quaisquer maneirismos, com apenas um foco na vida, juntar seu dinheiro e montar seu negócio, preocupado unicamente em fazer bem seu serviço e passar despercebido por todos, Albert perambula por aquele local sem chamar muita atenção, parece que seu olhar triste e resignado está sempre disposto a nos provocar um sentimento de piedade por aquele ser invisível.

            O filme foi visto por poucas pessoas, tendo gerado ao estúdio poucos milhões de dólares na sua estreia nos EUA, talvez seja por isso que tenha passado quase despercebido no Oscar e em outras premiações, não fosse a tamanha competência de Glenn Close e Janet McTeer, duas grandes atrizes que brilham em seus papéis.

            Na era pós-gênero, diversas discussões assolam a sociedade que imediatamente após o nascimento do individuo precisa definir sexo e gênero e assim determinar o resto da vida do indivíduo, mas o que poucos entendem é que esse pós-gênero fala também sobre as pessoas sem gêneros, que preferem não ser enquadradas (e nem têm essa necessidade) dentro de um sistema anteriormente existente que diga como ela deve agir ou por quem deve se sentir atraída, e não é lindo que um filme que se passa em pleno século XIX aborde tais questões tão contemporâneas?

sábado, 3 de março de 2012

Jovens Adultos (Young Adults, 2011)



                Seria decepcionante para as adolescentes que costumam ler histórias sobre vampiros que brilham sob a luz do sol descobrir que sua saga preferida foi escrita por uma mulher de meia idade, alcoólatra, desprezível e depressiva. Não, não estou falando de Stephenie Meyer, autora da Saga Crepúsculo, estou falando de Mavis Gary, a personagem interpretada por Charlize Theron em Jovens Adultos. Apesar de escrever livros sobre uma história boba para adolescentes, seu trabalho não é reconhecido porque não foi ela quem criou a franquia. Legal, huh?

                Mavis Gary recebe um e-mail que seu ex-namorado Buddy Slade (Patrick Wilson) mandou para sua antiga turma do colegial informando do nascimento de sua primeira filha, logo Mavis acredita que isso foi um pedido de socorro dele para que ela pudesse salvá-lo do tédio infernal de ser bom pai, marido e trabalhador, logo Mavis embarca em uma viagem para sua cidade natal e é obrigada a lidar com todas as coisas que outrora eram tão favoráveis a ela, mas que agora não passam de grandes incômodos que a distanciam do seu objetivo principal, reconquistar o ex-namorado.

                Confesso que não sou grande fã do primeiro trabalho como roteirista de Diablo Cody, o sucesso de crítica Juno, mas aqui Cody consegue sustentar sua história com pitadas de humor e tristeza, sem nunca trair sua essência. (não leia o resto do parágrafo se você ainda não viu o filme) Parece muito sarcástico que Mavis consiga finalmente terminar seu livro, que é literatura “enlatada” para adolescentes em uma lanchonete de estrada, mas vai saber onde de fato Stephenie Meyer acabou de escrever a saga de seus vampirinhos?!

                A força do filme certamente está na sua personagem principal, a autora Mavis Gary que nutre certo desprezo por qualquer pessoa que não tem a honra de ser ela própria, mesmo essa levando uma vida vazia de significados, álcool e sedentarismo. Incapaz de perceber a desgraça que sua vida se tornou, Mavis parece achar que sua vida parou no tempo e insiste em pensar que faça o que for sempre será aquela garota linda, popular e cheia de namorados no colegial, mas tudo isso desmorona aos poucos quando ela volta para sua cidade e tem de enfrentar coisas e pessoas (até mesmo seus pais) que deixou para serem esquecidos no passado.

                Interpretada com extrema sensatez por Charlize Theron, Mavis é um achado nos filmes independentes do ano, seu olhar sempre desprezível e arrogante, sempre pronta para afastar qualquer um que cruze os limites que ela mesma impõe, nunca conseguimos vê-la como uma chata e sem graça, talvez pela vulnerabilidade que lhe é conferida na segunda metade do filme, levantando uma relevante questão constantemente ignorada por nós: pessoas abençoadas com o dom da beleza também sofrem e têm problemas, sim.

                Resumindo, Jovens Adultos não é só um filme que preza pelo amadurecimento tardio de sua personagem, é um filme que fala sobre o quanto separamos uns aos outros pelo nível de beleza existente entre nós, mesmo sabendo que isso não nos levará a lugar nenhum. Mas, principalmente, nem sempre tudo é o que parece.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Tão forte e tão perto (Extremely Loud and Incredibly Close, 2011)




Stephen Daldry é um diretor com uma rica sensibilidade e isso é visível ao ver os filmes da sua carreira, mas ele possui uma característica singular que marca alguns filmes do seu currículo, ele sabe como ninguém falar do universo infantil. Ele começou fazendo isso em Billy Elliot, continuou em As Horas (conseguindo extrair uma linda interpretação do garotinho Jack Rovello, filho de Laura Brown), depois de um hiato em O leitor, ele volta a falar disso no seu mais novo projeto Tão forte e tão perto. Então, é fato que Daldry tem um nível de excelência em seus trabalhos como poucos diretores hoje em dia, é fato também que é um excelente diretor de atores, já que de cada filme seu sempre tem um vencedor ou indicado ao Oscar, seu nome virou sinônimo de qualidade.

Na estreia de seu mais novo filme, Tão forte e Tão perto, a crítica americana apontou seus defeitos e o lançou no mar do esquecimento (mas mesmo assim ele viu seu filme indicado ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Ator Coadjuvante). O fato é que Tão forte e Tão perto está longe de ser o fracasso, a decepção que alguns clamam, mas também está longe do nível de excelência que Daldry costuma alcançar. Pelo fato de ser um diretor com uma visível competência, quando as pessoas veem seu nome em algum projeto, todos já esperam algo no mínimo digno de ser chamado de “obra-prima”, mas isso não acontece aqui, por isso tamanho questionamento.

Tão forte e tão perto, conta a história de um garotinho que vê seu pai que também é seu melhor amigo morrer no trágico dia 11 de Setembro, no atentado as Torres Gêmeas, a partir disso ele vai mergulhar em uma busca incessante atrás do enigma que seu pai deixou a ele, encontrar a porta que abre com a enigmática chave deixada no guarda-roupa. O roteiro é baseado no livro de Jonathan Safran Foer que é cheio de voltas e revoltas, passa por diversas situações, ora divertidas, ora dramáticas, portanto Eric Roth merece aplausos por ousar mexer em algo que adaptado para o cinema pode soar como um amontoado de clichês, não que  filme não escape disso, mas sei medianamente bem. Roth é o cara que escreveu Forrest Gump  - O Contador de Histórias e O Curioso Caso de Benjamin Button, então ele tem bastante experiência nisso.

Durante todo o filme percebemos que Oskar Schell, interpretado por Thomas Horn, tem uma mente peculiar, aliás, fica bastante implícito ao longo da projeção se ele realmente sofre de algum transtorno psíquico, só há um momento onde esse assunto é tocado, na cena em que ele conversa com a personagem de Viola Davis e afirma que uma vez fez um exame para Síndrome de Asperger, e mesmo que ele tenha algumas características, como a incapacidade de relação social (para isso seu pai o instigava através de buscas por coisas pela cidade que assim o obrigava a conhecer pessoas), ou a inabilidade de consolar os outros já que parece distribuir beijos e abraços para as pessoas aleatoriamente de forma distante e fria, sempre alienado do significado emocional que isso pode ter e até mesmo a identificação com números e lógica (já que para conseguir encontrar o dono da chave elaborou um esquema próprio, IZD, Índice de Zonas Dobráveis, que parece difícil para qualquer mente comum), nada é comprovado de fato, são apenas conclusões que se pode tirar.

O trabalho do garotinho Thomas Horn não é dos mais fáceis, aqui ele tem uma figura complexa, que se encontra em estado de luto e que tenta lidar com isso da forma como sua cabeça pede, seus conflitos emocionais estão sempre latejantes e nas cenas mais dramáticas, ele não decepciona, ao lado de Sandra Bullock e Max Von Sidow. Às vezes, o jovem Oskar pode soar mimado e chato, mas acredito que Thomas conseguiu lidar com isso de maneira formidável. Max Von Sidow surge como uma melancólica figura muda, sem pronunciar uma palavra o ator sueco oferece uma intepretação comovente, Viola Davis aparece como uma mulher chorosa e sofrida como sempre, mas é competente como sabe ser, e até Jeffrey Wright (da minissérie Angels in America) tem seu momento marcante, mesmo que minúsculo. Já Sandra Bullock faz o que pode com sua personagem unidimensional que surge pronta para chorar a cada cena em que aparece mesmo que não seja necessário, e Tom Hanks, aparece como uma figura única caricata.

Recentemente vi um filme francês chamado Brinquedo Proibido, que conta a aventura de duas crianças que se fascinam por cruzes e passam a roubar todas que veem, depois da morte dos pais de uma delas durante a Segunda Guerra Mundial, pude traçar um paralelo com Tão forte e Tão perto, já que parece que nos dois filmes as crianças passam a lidar de forma quase obsessiva por determinadas coisas depois da morte de alguém que amam, no processo do luto, as crianças parecem sempre focarem suas atenções em outras coisas para não ter que lidar com a dor da perda.

O fato é que esse parece ser o filme mais comercial de Daldry (Bullock e Hanks em um mesmo projeto, mesmo que para papéis coadjuvantes é sinônimo de boa bilheteria), e também o mais questionável, mas espero que Daldry consiga recuperar toda sua sensibilidade e inteligência e consiga fazer novamente um filme de tamanha excelência como As Horas.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Amores Imaginários (Les amours imaginaires, 2010)




Amores Imaginários conta a história de Marie e Francis, dois amigos que se apaixonam pelo angelical Nicolas, e que a partir daí vão iniciar uma competição silenciosa pela atenção e admiração dele. Nessa competição, os dois farão de tudo para agradá-lo e começam uma amizade a três, sempre juntos, até na hora de dormir, os dois são incapazes de descobrir por quem Nicolas está afim, já que este se revela um sujeito ambíguo a todo o momento, ou até mesmo de descobrir se ele está afim de um dos dois.
O triunfo do filme está no fato de acompanharmos as peripécias desse triângulo quase amoroso, acompanhamos o desespero de Francis e Marie para agradar Nicolas, esses personagens estão constantemente sendo filmados em câmera lenta no momento em que estão se arrumando e caminhando pelas ruas, tomados pela esperança de estar aos pés da beleza de “Nico” para poder agradá-lo e chamar sua atenção. Mais do que um retrato fiel sobre a necessidade de chamar atenção daqueles que amamos, Amores Imaginários funciona como uma análise sobre a busca incessante da juventude moderna pelo padrão de beleza universal, os personagens estão sempre maquiados, com o corte de cabelo perfeito e vestindo roupas caras, e são incapazes de perceber (assim como nós) o quão bobo isso soa, mas o filme parece nunca ter a pretensão de julgá-los (ponto positivo), e sim de extrair belas cenas da infantilidade de seus atos. Em contraponto a beleza “forjada” dos dois personagens, está a beleza angelical e quase etérea de Nicolas, um jovem que possui naturalmente todo o padrão de beleza que dizem que devemos alcançar, ele parece não fazer esforço nenhum para se tornar bonito e talvez isso seja o que mais invoque o amor deles.
Dolan é um jovem e competente diretor (sim, ele tinha apenas 20 anos na época em que escreveu, dirigiu e atuou no filme), usa música pop francesa até composições clássicas que a todo instante parecem capturar os gestos mais bonitos do ser humano e provar que o corpo humano já é bonito por si só, além do estilo na forma como enquadra seus personagens.
Amores Imaginários é um filme de moderado desespero, honesto até seu último segundo, que captura a alma insegura da juventude em relação ao primeiro amor, com um clima documental (já que este investe em pequenos depoimentos de estranhos sobre fracassos amorosos), que facilmente se tornará modelo para qualquer diretor que pretenda futuramente falar sobre amor na juventude.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Precisamos falar sobre o Kevin (We need to talk about Kevin, 2011)



Precisamos falar sobre o Kevin é um filme de análise de personagem, onde o objeto de estudo é Eva Katchadourian que tem sua vida mudada e destruída após o massacre causado pelo seu filho na escola em que estudava.
Através de uma montagem fragmentada e não cronológica vamos conhecendo a vida de Eva em diversos momentos, desde o início do namoro com seu marido até o momento em que tem que lidar com as consequências do ato cruel que seu filho cometeu. A montagem aparentemente desconexa serve aqui para que possamos perceber e refletir sobre as mudanças, tantos físicas quanto psicológicas, que a personagem principal sofre, enquanto Kevin ainda é criança, apesar de sua relação com o filho já se revelar conturbada, vemos na figura de Eva uma mulher vaidosa, inteligente e segura, ao passo que se revela extremamente cansada, distraída e antissocial depois da tragédia, e isso está extremamente claro no trabalho magnífico de Tilda Swinton, que abordarei a seguir.
O filme se inicia com a personagem feliz no meio de centenas de pessoas, sendo carregada toda suja de um líquido vermelho e a partir daí vai ser constante a luta de Eva para se livrar desse vermelho, seja quando ela acorda com a fachada de sua casa toda suja de vermelho em um ato de vandalismo ou quando seu filho suja de vermelho as paredes do seu quarto com uma pistola de brinquedo só para vê-la desesperada. O vermelho aqui pode significar a dor da personagem que jamais a abandona e principalmente, a crueldade do ato de seu filho, por mais que ela limpe seu carro, a fachada de sua casa ou as paredes do quarto, a tragédia nunca vai embora, o sangue sempre vai estar presente em suas mãos.
Assistir Eva sendo lentamente devorada viva pela culpa e pela perplexidade se torna um processo extremamente doloroso para o espectador, conhecer uma Eva resignada e tratada como a principal culpada do que aconteceu não é nada fácil, em certo momento ela está no corredor de um supermercado e de repente se esconde assustada e ofegante de uma mulher, deixando até sua bolsa para trás, quando mais tarde descobrimos que aquela mulher era mãe de uma das vítimas de seu filho, em outro momento Eva é agredida na rua e aceita a agressão como forma de punição, seja a agressão verbal ou física, isso vai destruindo a sua condição humana aos poucos e sem perceber Eva caminha para o fundo do poço.
O grande triunfo do filme com certeza está no trabalho fenomenal de Tilda Swinton, uma atriz que vem revelando-se mais competente a cada projeto. Tilda é hábil ao fragmentar o comportamento de Eva em dois momentos: antes da tragédia, como já havia citado, a personagem revela-se inteligente, vaidosa e feliz, demonstrando algumas nuances de revolta e insegurança perante o seu filho, mesmo que este ainda tenha seis anos de idade, ela se torna completamente imóvel ao tomar qualquer providência em relação às atitudes provocadoras dele. Logo após a tragédia, Tilda expõe a mudança drástica que sua personagem sofreu ao mostrar Eva quase como um animal indefeso, sendo tomada pelo medo de ser vista em público, e pela culpa através de nuances como um tom de voz mais baixo e sussurrado ou em um olhar cansado e perdido. Eva se empolga ao saber que pode se conectar na internet, Eva corre para o lado contrário quando alguém grita seu nome na rua, Eva aceita as ofensas e olhares de julgamento calada, como eu disse, não é uma tarefa fácil assistir a degradação humana de uma pessoa que não teve culpa em relação a nada.
Se você ainda não viu o filme, pule para o próximo parágrafo:
Kevin odiava a sua mãe mais do que tudo no mundo, e o grande objetivo de sua existência na terra era transformar a vida dela em um inferno, mas poupá-la de ser mais uma de suas vítimas talvez tenha sido um ato final de crueldade, porque morrer é rápido demais, deixa-la viva para suportar todos os dias a dor de perder sua família e ser constantemente o alvo fácil de uma sociedade hipócrita que aponta o dedo para todos os defeitos do outro, seria mais doloroso e cruel, o que ele não contava é que poderia estar completamente enganado.
Precisamos falar sobre o Kevin reflete sobre um tema que filmes como Elefantes, de Gus Van Sant e Tarde Demais, de Shawn Ku já debateram, apenas com um ponto de vista diferente, focando na suposta culpa e responsabilidade daqueles que deveriam educar para que seus filhos se tornassem seres humanos melhores.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Um homem que grita (Un homme qui crie, 2010)



Uma das mais visíveis características do filme “Um homem que grita”, é um paradoxo, centrado no personagem central o filme usa ao longo da projeção o silêncio como um elemento dramático, e o personagem central ao contrário do que imaginávamos é um homem calmo, pacato, e que quase nem abre a boca para falar.
No seu desenvolvimento, percebemos a triste transformação da sua vida, de salva-vidas chefe passar a ser um simples porteiro, e é aí que se encontra o maior triunfo de seu roteiro, na exposição da dualidade de seu personagem. Sempre centrado no desenvolvimento da boa relação pai e filho, o roteiro nunca deixa esse questionamento claro e explícito, ele fica apenas subentendido, guardado, como na triste cena em que o pai assiste o filho sendo capturado pelo exército e este gritando por ajuda e ele não faz nada, permanece dentro do quarto calado, paralisado. O roteiro primeiro desenvolve com habilidade a boa relação de pai e filho entre os personagens centrais, e como essa relação é afetada depois que o pai tem de decidir se o filho vai para guerra ou não, e consequentemente, se vai conseguir seu emprego de volta ou não. Sempre dividido entre ser um pai dedicado e um homem com orgulho, nunca conseguimos ver o personagem central como alguém ruim pelas suas atitudes.
O filme possui cenas de forte impacto, como no momento em que ele está sentado em um banco que costumava sentar com seu filho, e a câmera vai se aproximando lentamente para seu rosto, enquadrando aquele homem desiludido, ou na cena em que sequer tenta ajudar o cachorro vira lata que sempre alimentava quando este é chutado pelo novo cozinheiro.
Um homem que grita é um filme tocante sobre a covardia que mora dentro de nós e sobre o poder devastador que ela tem sobre a nossa vida.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Reencontrando a felicidade (Rabbit Hole, 2011)


Rabbit hole impressiona e emociona pela sua simplicidade. John Cameron Mitchell nos conta uma triste história de um casal que luta para seguir em frente depois da morte do filho pequeno em um acidente de carro. O casal, muito bem defendido por uma Nicole Kidman e um Aaron Eckhart no melhor exercício de suas profissões, lida com o luto e com a perda da maneira mais acessível que lhe convêm de formas muito diferentes e às vezes até contraditórias. Howie se apega a vídeos do filho, fotos, pegadas de mãos sujas nas paredes e qualquer coisa que o faça lembrar do filho, mas ao mesmo tempo aceita a opção de ter outro filho ou até mesmo de vender a casa, já Rebecca tenta se livrar de tudo, não na tentativa de esquecer, mas apenas na tentativa de amenizar a dor, como doando roupas, colocando os brinquedos no porão, ou tirando a cadeirinha do banco de trás do carro, mas não consegue se afastar do garoto que provocou o acidente que matou o seu filho, em uma tentativa de misericórdia ou de lembrança, já que este se apresenta como a única lembrança viva do filho que não terá mais.
A dor da perda de um filho é um assunto recorrente no cinema, tratado de várias maneiras, como o belo italiano O Quarto do filho ou o visceral Entre Quatro Paredes, de Todd Fields. A narrativa de Rabbit Hole, que foi baseada em uma peça teatral vencedora do Tony, acerta ao se tornar bem equilibrada entre momentos subjetivos e objetivos, ao tentar transpor aos nossos olhos o conflito interno de seu casal principal e as brigas entre eles, na tentativa de achar um culpado.
John Cameron Mitchell, que há alguns anos dirigiu Shortbus, um drama (explícita e esteticamente) erótico, que contava histórias sobre a vida sexual de vários estranhos. Ao olho nu, Shortbus podia soar apenas pornográfico e superficial, mas em uma melhor análise Shortbus, que usa o sexo para falar sobre a solidão nas cidades, e como o sexo fácil pode ser uma válvula de escape. Aparentemente, me surpreende a segurança com que Cameron Mitchell dirige Rabbit Hole, transformando o filme em uma obra bem estruturada e comovente, sem arroubos dramáticos para segurar a atenção. Aliás, ao longo do filme podemos citar cenas memoráveis, como a cena do porão, em que Becca pergunta a mãe:
- Algum dia essa dor vai embora? e Nat (Diane Wiest), responde com uma honestidade cruel: - Não!
Temos ainda a cena do carro, em que Becca presencia a festa de uma família na ida do filho para a faculdade e se dá conta de que ela nunca viverá esse momento, e aos poucos flashes do dia do atropelamento invadem sua mente e a levam a um ataque de choro, tenho que citar a grandiosidade dessa cena e a magnitude da excelente montagem que opta por cortes rápidos mostrando apenas o semblante de pavor e de desespero da mãe, que se move lentamente, servindo como uma luva ao estudo psicológico do momento, já que de fato os momentos mais traumáticos de nossas vidas só conseguimos lembrar através de cortes fragmentados, a cena associada à bela e melancólica trilha sonora, se torna ainda mais triste.
Nicole Kidman, como Rebecca, exerce o melhor trabalho de sua carreira em anos, talvez desde As Horas, louvada pela crítica esse ano, talvez tivesse chances no Oscar se o filme tivesse melhor lançamento e divulgação, mas a injustiça do esquecimento fica por parte do excelente trabalho de Diane Wiest, a eterna coadjuvante de ouro, como a mãe que já passou por isso e que conseguiu se reerguer.
O fato de nunca conhecermos Arthur, não diminui a dor da perda e ao contrário, ainda conseguimos nos reconhecer em sua dor.
Certa vez ouvi um ditado que dizia: “Quando um cônjuge perde o companheiro, ele se torna viúvo, quando um filho perde os pais, se torna órfão, mas quando os pais perdem um filho, isso é tão desumano que ninguém ousou dar um nome”. Esse tema pode ser tratado no cinema milhares de vezes, mas nenhum filme vai conseguir traduzir a dor dessa perda, mas Rabbit Hole é válido pelo exercício. Um dos mais belos filmes do ano.

NOTA: 8,5

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Pânico (Scream, 1996)


Há quem goste de filmes de terror e há quem os odeie, mas os motivos são vários, alguns são violentos demais e outros são ruins demais, alguns simplesmente não conseguem cair na graça do público e outros nem merecem fazê-lo. Afinal, o que qualifica um filme de terror como um bom exemplar?
Um exemplo para ser estudado é o primeiro filme da trilogia Pânico (repare que ainda não dei a minha opinião sobre o filme) que divide opiniões. Pânico foi dirigido por Wes Craven em 1996, que até então havia dirigido As Criaturas atrás das paredes e A hora do Pesadelo e que se estabeleceu de vez como o mestre do terror (dignamente).
Pânico conta a história de Sidney Prescott que ao completar um ano após o assassinato de sua mãe em uma pequena cidade chamada Woodsboro tem que lidar com um serial killer aterrorizando a cidade atrás de jovens estudantes estúpidos e tarados, mas que tem como prato principal a protagonista virgem.
Parece uma sinopse comum vista em dezenas de outros filmes de terror adolescente, não? Mas em Pânico tudo é diferente, o roteiro de Kevin Williamson (Dawnson’s Creek) nos oferece um olhar diferente sobre tudo isso.
Vilões que aumentaram a popularidade do gênero no cinema como Freddy Krueger, Michael Meyers ou Jason Vorhees criaram em seus filmes e em suas sequências as regras dos filmes de terror adolescente, e a partir daí é como um bolo de caixa, é só empacotar e exibir. Bom, isso não funciona com Pânico, já que ao longo da projeção essas regras são escancaradas e todas as cartas são jogadas ao expectador, é como um mágico revelando todos os seus truques de magias, mas é aí que se encontra o sucesso do filme, o roteiro não satisfeito em entregar todas as regras, consegue ainda fazer piada com isso. Com uma narrativa inteligente, o roteiro não nos deixa suspeitar por muito tempo de apenas um personagem, como na cena em que Randy, Stuart e Billy conversam na locadora e ficam se acusando, é como um jogo de ping pong, todos os personagens que estão diretamente envolvidos tem motivos bastante concretos para se tornarem suspeitos e em todo momento o roteiro faz questão de salientar isso, até mesmo a própria protagonista, como na cena em que duas garotas conversam no banheiro acusando Sidney.
De início se trata apenas de um assassino com uma roupa preta, uma máscara de fantasma e uma faca matando, como disse acima jovens estúpidos e tarados, mas a outra grande parte do filme é que ele não se nega. Pânico não quer e nem pretende ser uma obra prima ou um clássico que vai entrar para história, ele mesmo se assume como apenas um filme slasher movie em todos os momentos e não pretende ser mais do que isso.
A verdade é que por mais que o filme tenha as suas irregularidades e seus defeitos, não podemos negar a sua importância para o gênero, já que foi o filme que ressurgiu das cinzas o gênero terror/suspense e que veio a influenciar nos próximos filmes de terror para adolescente como Eu sei o que vocês fizeram no verão passado, Premonição e Lenda Urbana.
Em uma determinada cena um personagem diz: “Tem que haver uma sequência sempre”, influencia dos clássicos do terror que não só tiveram sequência como quase viraram série, ou quando Sidney fala: “A mocinha que ao invés de abrir a porta e sair correndo acaba subindo as escadas”, que vem de Halloween e que mais tarde é usada em Pânico 2, mas talvez o melhor momento é quando Randy estabelece as regras: “Não transe e nunca diga Já volto”. Já que a trilogia toda é marcada por suas cenas de abertura (que foi uma das características que não se perderam), o que dizer do jogo de gato e rato com Casey Cooper, interpretada por uma Drew Barrymore (que desistiu do papel de Sidney com medo que o filme arruinasse sua carreira) aterrorizada? Brilhante.
A diferença de Pânico para esses outros exemplares, é que ele é sarcástico, cômico, criativo, cheio de referências aos clássicos e se assume como um filme feito para a diversão para o público jovem e que usa os clichês de outros filmes que o influenciaram e acaba se tornando uma homenagem ao terror.
Nota: 8,0

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, 1994)


As Pontes de Madison é um conto sobre amor, e sobre honestidade, sobre todas coisas que buscamos e as coisas que temos, e como somos obrigados a nos acostumar com elas.

Robert Kincaid, jornalista fotográfico da National Geographic e Francesca Johnson, uma dona de casa do Iowa, não estavam à procura de qualquer reviravolta nas suas vidas. Cada um já tinha chegado a um ponto da vida em que as expectativas pertenciam ao passado. Contudo, quatro dias depois de se conhecerem não querem perder o amor que encontraram. Meryl Streep premiada com Oscares da Academia (foi nomeada pela 10ª vez por esta interpretação) e Clint Eastwood (que produziu e realizou o filme) encantam com uma brilhante e poderosa interpretação dos personagens criados pelo escritor Robert James Waller neste best-seller de amor, decisões e consequências. O Entertainment Weekly afirma: "Streep e Eastwood, tanto em imagem como em espírito, estão tão perfeitos que parecem sair das páginas do livro". Também perfeitos estão os pequenos detalhes e as grandes emoções do grande amor de uma vida. Com sorte, mais cedo ou mais tarde, um amor destes acontece na vida de cada um. Para Robert e Francesca foi tarde. Mas foi glorioso.


Francesca tem uma sinceridade dolorosa sobre a vida, é uma mulher que busca inconscientemente pelo novo, pelo especial, aquilo que a faça tremer, mas que já está acostumada com o convencional e comum, uma espécie de rendição própria, mas todos os seus sonhos e desejos vêm na figura desse homem fotógrafo e forasteiro que a faz sentir viva de novo, mas como ela já está tão acostumada a se render e entregar seus sonhos ao passado é exatamente isso que ela faz, ou pelo menos tenta fazer.



As Pontes de Madison que recentemente foi adaptado para o teatro cativa pela simplicidade em sua essência, que pode ser a palavra chave para melhor descrever a obra adaptada do romance de Robert J. Waller, sem jamais ir para o absurdo e exagerado. É sobre duas pessoas que se amam mas são inteligentes o bastante para enxergar os dois lados dessa relação, sem nunca tirar os pés do chão.



Algumas vezes As Pontes de Madison consegue até ser erótico, mas do seu próprio modo, como na cena em que Francesca toma banho na banheira que Robert tinha acabado de usar.



Meryl Streep e Clint Eastwood são competentes ao perceber que a força do filme não está somente em suas performances, mas no roteiro do filme, percebem que Francesca e Robert se apaixonam um pelo outro por motivos opostos, ela se apaixona por ele por ser um forasteiro cheio de histórias e experiências do mundo, e ele se apaixona por ela por ser uma dona de casa comum e triste, eles percebem que se completam.



O fato é que As Pontes de Madison é um dos romances mais honestos da década de 90.




NOTA: 8,5

Dente Canino (Kynodontas, 2010)

Ultimamente temos acompanhado na TV através de noticiários casos monstruosos sobre atrocidades que alguns pais cometem contra os próprios filhos, como jogar recém-nascido na lata de lixo, ou simplesmente manter a própria filha trancafiada no porão da própria casa e estupra-la diariamente por anos. Esses casos de atrocidades aos poucos vêm sendo representados no cinema de todo mundo, sempre de uma forma polêmica e perturbadora.

Dente canino pode ser considerado um exemplar desse tipo de atrocidade que o ser humano sempre está disposto a fazer em nome do bem próprio, mesmo que isso signifique ferir e torturar o próprio filho. O filme grego de Yorgos Lanthimos, conta a história dos pais que criaram seus três filhos, um menino e duas meninas, sem a interferência ou influência de qualquer outro ser humano além deles, sem influência da Tv, Jornais ou qualquer outro meio de informação, aos poucos no destrinchar da história podemos perceber a deficiência mental causada pelos pais em seus filhos devido à educação destrutiva. Os três filhos cresceram e apesar de já terem se tornado homem e mulheres ainda agem como se fossem crianças que brincam de bonecas e correm pelo quintal de casa.

O filme que recente e supreendentemente foi nomeado ao Oscar 2011 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro tem uma carga de violência muito grande, não só física, mas também mental, porque a todo o momento ficamos atordoados e nos sentimos perturbados por presenciar tudo aquilo, que há pouco tempo achávamos de que seria impossível de acontecer. A degradação humana chega a um ponto tão absurdo que as “crianças” acham que um simples gato pode se tornar uma ameaça mortal para toda a família como se fosse uma fera sedenta por sangue, já que assim avisou o pai deles, e por causa disso o “menino” acabou cortando a cabeça de um pobre animal com uma tesoura de podar. Em outro momento, o “menino” que só mantém relações sexuais com uma estranha que através do pai vai até a casa deles de carro e com os olhos vendados para não reconhecer o caminho, ouve a palavra zumbi e em um impulso de curiosidade pergunta a mãe o que aquilo significa e ela lhe responde que é apenas uma flor amarela. E por aí vai, como na cena em que vemos uma das “meninas” fazendo sexo oral na estranha em troca de um presente qualquer, e aquelas menina acabam acreditando que lamber as outras pessoas é um gesto de agrado e carinho.

Esse tipo de educação absurda e degradante acaba nos fazendo perguntar como poderia ter surgido e como aqueles pais podem ter a coragem de retardar voluntariamente seus próprios filhos, um dos triunfos do roteiro escrito por Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou é que sempre é deixado em aberto de onde aquilo surgiu, podemos perceber sim que aquilo é iniciativa do pai, já que é ele quem sempre tem as rédeas da situação e que sempre faz tudo para aquilo não sair dos trilhos, já que até sua esposa é mantida de “refém” porque acaba partilhando daquela educação, o que nos leva a pensar por algum momento que aquilo não passa de um ato de crueldade, mas isso o roteiro também não define, o que nos faz pensar também que aquilo é uma espécie de crença que o pai tem e que pode tornar seus filhos melhores desse jeito, como se os fins justificassem os meios.

Dente canino é controverso na sua própria controvérsia, não satisfeito de nos fazer presenciar aquela tortura absurda, ainda não nos oferece nenhuma espécie de consequência ou crítica sobre os danos sociais que aquilo tudo teria causado, ou seja, notadamente é um filme sobre ações e não de consequências, a todo o momento percebemos o quão aquela criação dada pelos seus pais foi destrutiva, mas em nenhum momento podemos perceber uma espécie de crítica ou de julgamento pela parte do diretor e do roteiro, aquilo tudo é aceitável sob todos os pontos de vista, o único lado que parecesse ser atacado e chocado com aquela espécie de existência são as pessoas que assistem e que sabem que a educação modelo e correta certamente seria aquela que estamos acostumados a ver, ou seja, a nossa.


Nota: 8,0
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Sobre Cinema e Lobos

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"Se você não vive a própria vida, não é como se vivesse outra vida, é como se não vivesse nenhuma."