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sexta-feira, 2 de março de 2012

Tão forte e tão perto (Extremely Loud and Incredibly Close, 2011)




Stephen Daldry é um diretor com uma rica sensibilidade e isso é visível ao ver os filmes da sua carreira, mas ele possui uma característica singular que marca alguns filmes do seu currículo, ele sabe como ninguém falar do universo infantil. Ele começou fazendo isso em Billy Elliot, continuou em As Horas (conseguindo extrair uma linda interpretação do garotinho Jack Rovello, filho de Laura Brown), depois de um hiato em O leitor, ele volta a falar disso no seu mais novo projeto Tão forte e tão perto. Então, é fato que Daldry tem um nível de excelência em seus trabalhos como poucos diretores hoje em dia, é fato também que é um excelente diretor de atores, já que de cada filme seu sempre tem um vencedor ou indicado ao Oscar, seu nome virou sinônimo de qualidade.

Na estreia de seu mais novo filme, Tão forte e Tão perto, a crítica americana apontou seus defeitos e o lançou no mar do esquecimento (mas mesmo assim ele viu seu filme indicado ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Ator Coadjuvante). O fato é que Tão forte e Tão perto está longe de ser o fracasso, a decepção que alguns clamam, mas também está longe do nível de excelência que Daldry costuma alcançar. Pelo fato de ser um diretor com uma visível competência, quando as pessoas veem seu nome em algum projeto, todos já esperam algo no mínimo digno de ser chamado de “obra-prima”, mas isso não acontece aqui, por isso tamanho questionamento.

Tão forte e tão perto, conta a história de um garotinho que vê seu pai que também é seu melhor amigo morrer no trágico dia 11 de Setembro, no atentado as Torres Gêmeas, a partir disso ele vai mergulhar em uma busca incessante atrás do enigma que seu pai deixou a ele, encontrar a porta que abre com a enigmática chave deixada no guarda-roupa. O roteiro é baseado no livro de Jonathan Safran Foer que é cheio de voltas e revoltas, passa por diversas situações, ora divertidas, ora dramáticas, portanto Eric Roth merece aplausos por ousar mexer em algo que adaptado para o cinema pode soar como um amontoado de clichês, não que  filme não escape disso, mas sei medianamente bem. Roth é o cara que escreveu Forrest Gump  - O Contador de Histórias e O Curioso Caso de Benjamin Button, então ele tem bastante experiência nisso.

Durante todo o filme percebemos que Oskar Schell, interpretado por Thomas Horn, tem uma mente peculiar, aliás, fica bastante implícito ao longo da projeção se ele realmente sofre de algum transtorno psíquico, só há um momento onde esse assunto é tocado, na cena em que ele conversa com a personagem de Viola Davis e afirma que uma vez fez um exame para Síndrome de Asperger, e mesmo que ele tenha algumas características, como a incapacidade de relação social (para isso seu pai o instigava através de buscas por coisas pela cidade que assim o obrigava a conhecer pessoas), ou a inabilidade de consolar os outros já que parece distribuir beijos e abraços para as pessoas aleatoriamente de forma distante e fria, sempre alienado do significado emocional que isso pode ter e até mesmo a identificação com números e lógica (já que para conseguir encontrar o dono da chave elaborou um esquema próprio, IZD, Índice de Zonas Dobráveis, que parece difícil para qualquer mente comum), nada é comprovado de fato, são apenas conclusões que se pode tirar.

O trabalho do garotinho Thomas Horn não é dos mais fáceis, aqui ele tem uma figura complexa, que se encontra em estado de luto e que tenta lidar com isso da forma como sua cabeça pede, seus conflitos emocionais estão sempre latejantes e nas cenas mais dramáticas, ele não decepciona, ao lado de Sandra Bullock e Max Von Sidow. Às vezes, o jovem Oskar pode soar mimado e chato, mas acredito que Thomas conseguiu lidar com isso de maneira formidável. Max Von Sidow surge como uma melancólica figura muda, sem pronunciar uma palavra o ator sueco oferece uma intepretação comovente, Viola Davis aparece como uma mulher chorosa e sofrida como sempre, mas é competente como sabe ser, e até Jeffrey Wright (da minissérie Angels in America) tem seu momento marcante, mesmo que minúsculo. Já Sandra Bullock faz o que pode com sua personagem unidimensional que surge pronta para chorar a cada cena em que aparece mesmo que não seja necessário, e Tom Hanks, aparece como uma figura única caricata.

Recentemente vi um filme francês chamado Brinquedo Proibido, que conta a aventura de duas crianças que se fascinam por cruzes e passam a roubar todas que veem, depois da morte dos pais de uma delas durante a Segunda Guerra Mundial, pude traçar um paralelo com Tão forte e Tão perto, já que parece que nos dois filmes as crianças passam a lidar de forma quase obsessiva por determinadas coisas depois da morte de alguém que amam, no processo do luto, as crianças parecem sempre focarem suas atenções em outras coisas para não ter que lidar com a dor da perda.

O fato é que esse parece ser o filme mais comercial de Daldry (Bullock e Hanks em um mesmo projeto, mesmo que para papéis coadjuvantes é sinônimo de boa bilheteria), e também o mais questionável, mas espero que Daldry consiga recuperar toda sua sensibilidade e inteligência e consiga fazer novamente um filme de tamanha excelência como As Horas.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Reencontrando a felicidade (Rabbit Hole, 2011)


Rabbit hole impressiona e emociona pela sua simplicidade. John Cameron Mitchell nos conta uma triste história de um casal que luta para seguir em frente depois da morte do filho pequeno em um acidente de carro. O casal, muito bem defendido por uma Nicole Kidman e um Aaron Eckhart no melhor exercício de suas profissões, lida com o luto e com a perda da maneira mais acessível que lhe convêm de formas muito diferentes e às vezes até contraditórias. Howie se apega a vídeos do filho, fotos, pegadas de mãos sujas nas paredes e qualquer coisa que o faça lembrar do filho, mas ao mesmo tempo aceita a opção de ter outro filho ou até mesmo de vender a casa, já Rebecca tenta se livrar de tudo, não na tentativa de esquecer, mas apenas na tentativa de amenizar a dor, como doando roupas, colocando os brinquedos no porão, ou tirando a cadeirinha do banco de trás do carro, mas não consegue se afastar do garoto que provocou o acidente que matou o seu filho, em uma tentativa de misericórdia ou de lembrança, já que este se apresenta como a única lembrança viva do filho que não terá mais.
A dor da perda de um filho é um assunto recorrente no cinema, tratado de várias maneiras, como o belo italiano O Quarto do filho ou o visceral Entre Quatro Paredes, de Todd Fields. A narrativa de Rabbit Hole, que foi baseada em uma peça teatral vencedora do Tony, acerta ao se tornar bem equilibrada entre momentos subjetivos e objetivos, ao tentar transpor aos nossos olhos o conflito interno de seu casal principal e as brigas entre eles, na tentativa de achar um culpado.
John Cameron Mitchell, que há alguns anos dirigiu Shortbus, um drama (explícita e esteticamente) erótico, que contava histórias sobre a vida sexual de vários estranhos. Ao olho nu, Shortbus podia soar apenas pornográfico e superficial, mas em uma melhor análise Shortbus, que usa o sexo para falar sobre a solidão nas cidades, e como o sexo fácil pode ser uma válvula de escape. Aparentemente, me surpreende a segurança com que Cameron Mitchell dirige Rabbit Hole, transformando o filme em uma obra bem estruturada e comovente, sem arroubos dramáticos para segurar a atenção. Aliás, ao longo do filme podemos citar cenas memoráveis, como a cena do porão, em que Becca pergunta a mãe:
- Algum dia essa dor vai embora? e Nat (Diane Wiest), responde com uma honestidade cruel: - Não!
Temos ainda a cena do carro, em que Becca presencia a festa de uma família na ida do filho para a faculdade e se dá conta de que ela nunca viverá esse momento, e aos poucos flashes do dia do atropelamento invadem sua mente e a levam a um ataque de choro, tenho que citar a grandiosidade dessa cena e a magnitude da excelente montagem que opta por cortes rápidos mostrando apenas o semblante de pavor e de desespero da mãe, que se move lentamente, servindo como uma luva ao estudo psicológico do momento, já que de fato os momentos mais traumáticos de nossas vidas só conseguimos lembrar através de cortes fragmentados, a cena associada à bela e melancólica trilha sonora, se torna ainda mais triste.
Nicole Kidman, como Rebecca, exerce o melhor trabalho de sua carreira em anos, talvez desde As Horas, louvada pela crítica esse ano, talvez tivesse chances no Oscar se o filme tivesse melhor lançamento e divulgação, mas a injustiça do esquecimento fica por parte do excelente trabalho de Diane Wiest, a eterna coadjuvante de ouro, como a mãe que já passou por isso e que conseguiu se reerguer.
O fato de nunca conhecermos Arthur, não diminui a dor da perda e ao contrário, ainda conseguimos nos reconhecer em sua dor.
Certa vez ouvi um ditado que dizia: “Quando um cônjuge perde o companheiro, ele se torna viúvo, quando um filho perde os pais, se torna órfão, mas quando os pais perdem um filho, isso é tão desumano que ninguém ousou dar um nome”. Esse tema pode ser tratado no cinema milhares de vezes, mas nenhum filme vai conseguir traduzir a dor dessa perda, mas Rabbit Hole é válido pelo exercício. Um dos mais belos filmes do ano.

NOTA: 8,5

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, 1994)


As Pontes de Madison é um conto sobre amor, e sobre honestidade, sobre todas coisas que buscamos e as coisas que temos, e como somos obrigados a nos acostumar com elas.

Robert Kincaid, jornalista fotográfico da National Geographic e Francesca Johnson, uma dona de casa do Iowa, não estavam à procura de qualquer reviravolta nas suas vidas. Cada um já tinha chegado a um ponto da vida em que as expectativas pertenciam ao passado. Contudo, quatro dias depois de se conhecerem não querem perder o amor que encontraram. Meryl Streep premiada com Oscares da Academia (foi nomeada pela 10ª vez por esta interpretação) e Clint Eastwood (que produziu e realizou o filme) encantam com uma brilhante e poderosa interpretação dos personagens criados pelo escritor Robert James Waller neste best-seller de amor, decisões e consequências. O Entertainment Weekly afirma: "Streep e Eastwood, tanto em imagem como em espírito, estão tão perfeitos que parecem sair das páginas do livro". Também perfeitos estão os pequenos detalhes e as grandes emoções do grande amor de uma vida. Com sorte, mais cedo ou mais tarde, um amor destes acontece na vida de cada um. Para Robert e Francesca foi tarde. Mas foi glorioso.


Francesca tem uma sinceridade dolorosa sobre a vida, é uma mulher que busca inconscientemente pelo novo, pelo especial, aquilo que a faça tremer, mas que já está acostumada com o convencional e comum, uma espécie de rendição própria, mas todos os seus sonhos e desejos vêm na figura desse homem fotógrafo e forasteiro que a faz sentir viva de novo, mas como ela já está tão acostumada a se render e entregar seus sonhos ao passado é exatamente isso que ela faz, ou pelo menos tenta fazer.



As Pontes de Madison que recentemente foi adaptado para o teatro cativa pela simplicidade em sua essência, que pode ser a palavra chave para melhor descrever a obra adaptada do romance de Robert J. Waller, sem jamais ir para o absurdo e exagerado. É sobre duas pessoas que se amam mas são inteligentes o bastante para enxergar os dois lados dessa relação, sem nunca tirar os pés do chão.



Algumas vezes As Pontes de Madison consegue até ser erótico, mas do seu próprio modo, como na cena em que Francesca toma banho na banheira que Robert tinha acabado de usar.



Meryl Streep e Clint Eastwood são competentes ao perceber que a força do filme não está somente em suas performances, mas no roteiro do filme, percebem que Francesca e Robert se apaixonam um pelo outro por motivos opostos, ela se apaixona por ele por ser um forasteiro cheio de histórias e experiências do mundo, e ele se apaixona por ela por ser uma dona de casa comum e triste, eles percebem que se completam.



O fato é que As Pontes de Madison é um dos romances mais honestos da década de 90.




NOTA: 8,5

Dente Canino (Kynodontas, 2010)

Ultimamente temos acompanhado na TV através de noticiários casos monstruosos sobre atrocidades que alguns pais cometem contra os próprios filhos, como jogar recém-nascido na lata de lixo, ou simplesmente manter a própria filha trancafiada no porão da própria casa e estupra-la diariamente por anos. Esses casos de atrocidades aos poucos vêm sendo representados no cinema de todo mundo, sempre de uma forma polêmica e perturbadora.

Dente canino pode ser considerado um exemplar desse tipo de atrocidade que o ser humano sempre está disposto a fazer em nome do bem próprio, mesmo que isso signifique ferir e torturar o próprio filho. O filme grego de Yorgos Lanthimos, conta a história dos pais que criaram seus três filhos, um menino e duas meninas, sem a interferência ou influência de qualquer outro ser humano além deles, sem influência da Tv, Jornais ou qualquer outro meio de informação, aos poucos no destrinchar da história podemos perceber a deficiência mental causada pelos pais em seus filhos devido à educação destrutiva. Os três filhos cresceram e apesar de já terem se tornado homem e mulheres ainda agem como se fossem crianças que brincam de bonecas e correm pelo quintal de casa.

O filme que recente e supreendentemente foi nomeado ao Oscar 2011 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro tem uma carga de violência muito grande, não só física, mas também mental, porque a todo o momento ficamos atordoados e nos sentimos perturbados por presenciar tudo aquilo, que há pouco tempo achávamos de que seria impossível de acontecer. A degradação humana chega a um ponto tão absurdo que as “crianças” acham que um simples gato pode se tornar uma ameaça mortal para toda a família como se fosse uma fera sedenta por sangue, já que assim avisou o pai deles, e por causa disso o “menino” acabou cortando a cabeça de um pobre animal com uma tesoura de podar. Em outro momento, o “menino” que só mantém relações sexuais com uma estranha que através do pai vai até a casa deles de carro e com os olhos vendados para não reconhecer o caminho, ouve a palavra zumbi e em um impulso de curiosidade pergunta a mãe o que aquilo significa e ela lhe responde que é apenas uma flor amarela. E por aí vai, como na cena em que vemos uma das “meninas” fazendo sexo oral na estranha em troca de um presente qualquer, e aquelas menina acabam acreditando que lamber as outras pessoas é um gesto de agrado e carinho.

Esse tipo de educação absurda e degradante acaba nos fazendo perguntar como poderia ter surgido e como aqueles pais podem ter a coragem de retardar voluntariamente seus próprios filhos, um dos triunfos do roteiro escrito por Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou é que sempre é deixado em aberto de onde aquilo surgiu, podemos perceber sim que aquilo é iniciativa do pai, já que é ele quem sempre tem as rédeas da situação e que sempre faz tudo para aquilo não sair dos trilhos, já que até sua esposa é mantida de “refém” porque acaba partilhando daquela educação, o que nos leva a pensar por algum momento que aquilo não passa de um ato de crueldade, mas isso o roteiro também não define, o que nos faz pensar também que aquilo é uma espécie de crença que o pai tem e que pode tornar seus filhos melhores desse jeito, como se os fins justificassem os meios.

Dente canino é controverso na sua própria controvérsia, não satisfeito de nos fazer presenciar aquela tortura absurda, ainda não nos oferece nenhuma espécie de consequência ou crítica sobre os danos sociais que aquilo tudo teria causado, ou seja, notadamente é um filme sobre ações e não de consequências, a todo o momento percebemos o quão aquela criação dada pelos seus pais foi destrutiva, mas em nenhum momento podemos perceber uma espécie de crítica ou de julgamento pela parte do diretor e do roteiro, aquilo tudo é aceitável sob todos os pontos de vista, o único lado que parecesse ser atacado e chocado com aquela espécie de existência são as pessoas que assistem e que sabem que a educação modelo e correta certamente seria aquela que estamos acostumados a ver, ou seja, a nossa.


Nota: 8,0

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O Leitor (The Reader, 2009)




Stephen Daldry é um diretor seletivo. Com apenas três filmes na sua filmografia, mas com três indicações ao Oscar, nos deu de presente um dos melhores filmes da década, o íntimo As Horas, o elogiado e premiado Billy Elliot, e depois de alguns anos de férias, ele volta com o polêmico O Leitor, que recebeu 5 indicações ao Oscar.


A sociedade acredita que é guiada pela moralidade mas isto não é verdade. O premiado diretor de As Horas, Stephen Daldry, mostra novamente toda sua força nesta história de medos e segredos escondidos pelo tempo. Hanna (Kate Winslet) foi uma mulher solitária durante grande parte da vida. Quando se envolve amorosamente com o adolescente Michael (Ralph Finnes)não imagina que um caso de verão irá marcar suas vidas para sempre. Livro com sucesso mundial de vendas, O Leitor é a uma história que nos levará a questionar todas as nossas mais profundas verdades.


O Projeto tão polêmico de Daldry possui níveis já conhecidos para quem acompanha os filmes desse diretor, o filme possui linhas mais voltadas ao íntimo dos seus personagens, está tudo subentendido, muitas nuances, como é característica do diretor, o que pode afetar um pouco o cinéfilo que não conhece suas obras e não entende seu trabalho e achar um filme “difícil”, mas na verdade O Leitor é um filme para ser assistido com vontade e disposição, para entender seus detalhes.


O Roteiro de David Hare, o mesmo roteirista de As Horas, expõe aqui seu talento com sutilezas, compõe um roteiro com uma visão diferente sobre os fatos do Holocausto, menos convencional e sem nunca deixar cair no melodramático, aliás cenas dramáticas em O Leitor faltam.


E como não podia faltar em um filme de Daldry, o seu elenco, que sempre é um ponto positivo a se somar, o trio formado por Fiennes, Winslet e Kross é magnífico. Winslet expõe uma tridimensionalidade maravilhosa de Hanna, é competente ao retratar a acusada como uma mulher forte, orgulhosa e trabalhadora, porém humana e ferida pela vida, com uma racionalidade incrível, a mesma mulher que é capaz de mandar a morta outras mulheres é capaz de chorar ao ver crianças cantando em uma igreja, é um trabalho emocional e interno maravilhoso de uma atriz que só cresce, com uma personagem acima de tudo ambígua. Ralph Fiennes, como sempre brilhante, expondo todo o amor, dúvida e certa raiva que ele sentia pela mulher que o abandonou. David Kross brilha na pele do Michael Berg mais jovem, capaz de expor todo o charme e inocência do seu personagem, acompanha dignamente todas as fases do seu personagem, amadurecendo-o, crescendo-o, vivendo-o. Mas, a grande surpresa de The Reader, se localiza na performance forte de terminada de Lena Olin, atriz que andava sumida, e que voltou com tudo, numa performance maravilhosa, que expõe sua Sr. Mather com a força e frieza que a dor lhe causou, e que personagem precisava.


O fato é que O Leitor, é mais um filme digno e competente de um diretor que cumpre o que promete a cada novo trabalho. Merecedor de cada indicação ao prêmio Oscar que recebeu e merecedor de elogios. O Leitor é mais um filme sobre as verdades que mantemos escondidas e sobre os momentos em que o passado insiste em voltar para nos assombrar, e o medo que temos dele.


NOTA: 8,0

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Dúvida (Doubt, 2009)

O filme de John Patrick Shanley levanta uma questão muito importante sobre a Igreja Católica e a sua reação diante de casos tão polêmicos como a pedifilia, assunto hoje tão destacado e comentado na Tv, em casos assustadores.

A história é ambientada no ano de 1964, em uma escola católica no Bronx (Nova York), onde a diretora (Meryl Streep) é uma dura freira que acusa publicamente de pedofilia um padre popular (Philip Seymour Hoffman). O filme aborda as questões de religião, autoridade e moralidade.

O caso do filme é muito peculiar, no primeiro ato o mesmo tem sua maestria, um roteiro intrigante e intrínseco e que nos questiona, nos envolve e define muito bem as características de seus personagens, mas no segundo e principalmente no último ato essa maestria se perde no seu emaranhado. O que estava implícito e subentendido com tamanha inteligência na primeira hora, se perde ao longo da projeção.

O Diretor conseguiu um grande elenco, mas o sentimento que fica ao término do filme é de que foi aquém, poderia ter sido mais. O Grande destaque e a verdadeira alma do filme é a performance de Amy Adams que compõe sua irmã James com extrema clareza e cuidado, sem deixar que se torne mais uma personagem incocente e sem importância para trama, sua presença está toda hora lá, com incríveis nuances. Philip Seymour Hoffman sempre competente expõe uma bondade e uma dualidade ao seu personagem que soa incrível, um bom equilíbrio do ator no qual o roteiro se apoia. Meryl Streep, é assustadora, mas assim como o roteiro nos deixa a sensação de que poderia ter sido mais, sua performance é quase um piloto automático, nem se parece com as competentes performances de As Horas e As Pontes de Madison. Viola Davis é um ponto positivo a somar.

Infelizmente, Doubt é aquele trágico tipo de filme que pára pela metade, dependendo de uma direção confusa e indecisa, um John Patrick Shanley perdido com a faca e o queijo na mão, porém cego demais para saber cortar.

NOTA: 6,0

terça-feira, 22 de julho de 2008

Fim de caso (The End of the Affair, 1999)


De vez em quando surgem filmes de romance que nos conquistam, mas existem duas formas de fazer um filme de romance para conquistar o público: 1) Usar de voltas e revoltas na narrativa para fazer o público se emocionar, como Diário de uma Paixão, Titanic e tantos outros. 2) Usar a simplicidade de contar uma história triste, de amor, como As Pontes de Madison, Antes do Amanhecer e Fim de caso.

Numa noite chuvosa de 1946, o novelista Maurice Bendrix (Ralph Fiennes) encontra Henry Miles (Stephen Rea), marido de sua ex-amante Sarah (Julianne Moore). Maurice e Sarah tiveram um tórrido caso dois anos antes, até que, sem qualquer explicação, Sarah terminou o romance. O encontro com Henry reacende a obsessão de Maurice por Sarah, num misto de ciúme e desejo em reencontrá-la. Para tanto, começa uma investigação, para poder entender o porquê do rompimento do romance entre os dois.

Ao usar truques de narrativa interessante o roteirista e diretor do filme Neil Jordan, conquista o público mesmo é com a simplicidade da história, é apenas uma história triste de amor impossível, é um filme sobre ódio, culpa, dor, e principalmente, escolhas. Poucos filmes emocionaram tanto quando esse, a veracidade dos diálogos jamais soam como algo falso, superficial. Neil Jordan trabalha com montagem não-linear, opta por uma ordem não cronológica, e usa truques que outros filmes já usaram, o de ver a mesma cena várias vezes mudando apenas o ponto de vista, de acordo com cada personagem, truque já usado em Elefante, e no recente Desejo e Reparação, montagem muito peculiar essa.

Sobre o elenco, Julianne Moore, como sempre competente, exerce uma personagem amargurada e ao mesmo tempo corajosa, correndo desesperada atrás de sua felicidade, passeando por vários sentimentos como medo, amor, dúvida, é sempre bom ver o trabalho minimalista dessa atriz, que a cada trabalho muda, ela não engorda ou emagrace, mas muda, a forma de andar, a voz (é impressionante o trabalho de voz de Julianne Moore), não é a toa que tem o reconhecimento que tem, é porque merece. Agora chegando ao ponto surpreendente do elenco, Ralph Fiennes, contracenando ao lado de Moore, mas não é ela quem chama a atenção, é Fiennes, estabelecendo Maurice como um sujeito dúbio, em certo momento do filme ele pede á Sarah: “Por favor, não vá”, até então o personagem não sabe que ao ir embora, Sarah o estará deixando para sempre, mas Fiennes estabelece um jogo dúbio com o expectador, falando como se já soubesse que provavelmente não veria mais sua amante. É bom quando o ator estabelece esse jogo de ambigüidade ao expectador, permitindo várias interpretações daquilo, e ao dizer “Por favor, não vá”, poucas vezes vimos tamanho desespero e amor sem o ator sequer piscar os olhos, acredito que só vi esse tipo de cena uma vez, em Sleepers – Vingança Adormecida, quando Dustin Hoffman ameaça outro personagem sem sequer olhar para ele. Tenho certeza de que se Ralph Fiennes fosse indicado ao Oscar, essa seria sua cena exibida, e com méritos. Por último, Stephen Rea, competente no que lhe é proporcionado, apesar de seu personagem não ser bem desenvolvido pelo roteiro e não ter a importância que merecia e podia, ele se sai bem como o desiludido Henry Miles.

A trilha de de Michael Nyman, o mesmo do ótimo O piano, é excelente, comovente e triste. A fotográfica é ótima, desde as cenas de bombas perto do apartamento de Maurice aos enquadramentos de quando os dois estão junto, quando Maurice e Sarah se beijam na chuva.

Só tem uma palavra que pode resumir Fim de caso: antológico. Daqui a 10 ou 20 anos, quando se falar em filmes de romance, não só As Pontes de Madison ou Antes do Amanhecer serão citados, mas Fim de Caso também estará nessa lista. Um filme inesquecível.
NOTA: 7,5

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Notas sobre um escândalo (Notes on a scandal, 2006)




O ano de 2006 realmente foi um ano de filmes ótimos, um período muito produtivo. Tivemos filmes excelentes, como A Rainha, Os Infiltrados, Pequena Miss Sunshine, O Ilusionista, Pecados Íntimos, tivemos até obra prima, como O Labirinto do Fauno, e ainda tivemos o ótimo Notas sobre um escândalo.


Quando Sheba Hart (Cate Blanchett) começa a trabalhar na escola St. George como a nova professora de arte, sua colega de trabalho Barbara (Judi Dench) sente que há algo errado nisso. Sheba inicia um romance com um de seus alunos – o que é terminantemente proibido na instituição - e Barbara se torna a maior guardiã desse segredo.


Com um roteiro adaptado do livro de Zoe Heller por Patrick Marber (mesmo roteirista do elogiado Closer), Notas sobre um escândalo possue suas falhas, um final muito ordinário, algumas vezes foge da natureza do personagem, demonstrando alguma insegurança, mas o que vale mesmo é o seu conteúdo intimista e moralista.


O diretor Richard Eyre (do ótimo Íris) fez um trabalho bastante regular, se concentrando no seu grande e único triunfo, Blanchett e Dench. Transformando o personagem de Bill Nighy em alguém unidimensional, sem grande importância, mesmo quando ele deveria ser um dos mais importantes. Richard Eyre nunca foi um grande diretor, apenas sabe tirar performances memoráveis de seus atores.


O filme, é óbvio, ficou muito marcado por ter o embate de duas grande atrizes da atualidade. E as duas não decepcionam nem de longe. Cate Blanchett esbanja sensualidade, charme e beleza com seus cabelos incrivelmente claros. Judi Dench, minunciosamente, passeia por sentimentos como paixão, deboche, sarcasmo, e até ciúmes, claramente ela faz uma alusão ao esteriótipo de bruxa que temos, uma velha amarga, feia, cheia de rugas, e com uma voz assustadora. É isso que Dench faz, e é esse o ponto crucial de sua performance, ela explicita sua velhice, e com uma entonação de voz de dar inveja a qualquer ator, ouvir ela dizer "She´s the one I´ve waited for" ou "I always knew we be friends" é como música.


A Trilha sonora do ótimo compositor Philip Glass, que criou trilhas memoráveis para As Horas ou O Show de Truman. também é maravilhosa, as músicas são marcantes.


Resumindo, Notas sobre um escândalo é um filme memorável, mais por parte de seus competente elenco, e não por seu diretor ou roteiro.




NOTA 7,5
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Sobre Cinema e Lobos

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"Se você não vive a própria vida, não é como se vivesse outra vida, é como se não vivesse nenhuma."